Conspiração

Por Dr. Liberato Caboclo*

Em 1975 eu estava trabalhando como pesquisador na Universidade da Flórida. Como sempre, o dinheiro era pouco. A família tinha ficado em Rio Preto. Tornei-me amigo de um sírio já há muito vivendo nos States. Você para trabalhar como médico nos States tem que ter feito residência, ter sido aprovado no Federal Board na maioria dos estados ou no Stadual Board em outros poucos estados.

Fui até Miami no carro do meu amigo sírio e lá ele me apresentou a uma empresa terceirizada que contratava médicos para as companhias marítimas que fazem cruzeiros entre Miami e as ilhas do Caribe. Lá fui eu sábado de manhã para minha jornada. O uniforme era bermuda branca, uma camisa de manga curta, meias e tênis brancos. Os passageiros eram obrigados a mostrar um atestado médico para obter a passagem, assim era uma clientela sadia. As ocorrências durante a travessia se resumiam a náuseas e enjoos ou pequenas variações da pressão arterial facilmente controladas com mudança de decúbito e remédios sintomáticos. Nunca tive maiores dificuldades.

No entanto, algum colega do Rio de Janeiro me viu nesses barcos e contou para todos os conhecidos. Em Rio Preto, nessa época, eu trabalhava com meu saudoso amigo Dante Nascibeni e havia combinado com ele e a sua ilustre esposa Eliana irmos na festa do folclore em Olímpia. Naquele domingo eu combinei com o Dante que eu iria visitar uma paciente que havíamos operado e morava em Flórida Paulista, cidade que fica a uns duzentos quilômetros de Rio Preto. Tudo arranjado. Dante e Eliana levariam meus filhos e a mãe deles até Olímpia e depois eu me encontraria com eles lá para ver o desfile folclórico.

Um amigo meu indo para Brasília parou nas imediações de Rio Preto e pretendeu me visitar. Não havia telefone celular ou nada similar à época. A moça que trabalhava na minha casa atendeu o telefone e ante a pergunta – o Dr. Liberato está? E ela prontamente respondeu – ele foi para a Flórida. A pergunta que se sucedeu foi – quando ele volta? Ela educadamente disse que não sabia pois quando chegara eu já havia saído, mas ela sabia que eu iria encontrar a família em Olímpia. Olympia é, nos States, a capital do estado de Washington. O raciocínio se fechou – eu morava na Flórida e trabalhava para o governo americano. O esquerdismo era puro disfarce. Eu era mesmo um agente da CIA.

Posteriormente em uma permanência mais longa no Rio notei que certas pessoas, velhos conhecidos, me tratavam com um certo desdém. Mais uma vez as coincidências conspiraram contra mim e de espião soviético me tornaram um agente da CIA. Como disse Caetano eu continuava como um objeto não identificado no céu de uma cidade do interior..

*Dr. Liberato Caboclo é médico, professor  e ex-prefeito de São José do Rio Preto

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