Fernando do Sindicato fala sobre a pandemia e seu impacto nos trabalhadores metalúrgicos

A pandemia do Covid-19 e a crise social e econômica que se instalou no Brasil traz sérias consequências aos trabalhadores, setor que já vinha enfrentando o desemprego e a forte perda de renda. É sobre isso que o sindicalista Luiz Fernando dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Mirassol e Região, fala nesta entrevista.

Fernando, na história do Sindicato dos Metalúrgicos de Mirassol certamente enfrentou fortes crises sindicais e econômicas, mas crise como esta do novo coronavírus parece muito maior e pode ser a mais prolongada, concorda?

Fernando – A história dos sindicatos é a história da luta de classes. Portanto, sempre foi naturalmente uma história de crises e conflitos. No campo econômico, as crises também fazem parte do próprio sistema capitalista e o mundo do trabalho também é o primeiro a ser afetado nestes momentos.

A diferença deste momento para os demais é que jamais enfrentamos uma crise de caráter sanitário como esta. Uma pandemia sobrepõe tudo o que poderíamos imaginar em todos os aspectos. Tivemos de ir aprendendo a cada dia em como lidar com a doença e as relações de trabalho. Toda a sociedade ainda está passando por esse processo e, certamente, por mais um tempo teremos de conviver com as restrições que o COVID-19 nos trouxe.

Com a chegada do Covid-19, grande parte dos trabalhadores brasileiros perderam seus empregos, e os que estão empregados estão expostos ao contágio com a doença. Agora mais do que nunca os trabalhadores sindicalizados devem contar com o apoio do Sindicato na luta pela preservação da saúde e de seus direitos trabalhistas. Como isto ocorre?

Fernando – Na teoria os direitos trabalhistas estão garantidos para todos os trabalhadores brasileiros. Sabemos que nunca funcionou exatamente assim com ou sem pandemia. Também sabemos que os trabalhadores sempre estarão mais protegidos se forem sindicalizados. 

Todo trabalhador sócio do sindicato sempre terá o apoio necessário para não ser prejudicado em qualquer situação que envolva sua vida no mundo do trabalho. Infelizmente, os sindicatos têm sido alvo de ataques permanentes por parte do governo e de setores empresariais buscando enfraquecer a união dos trabalhadores e sua organização. Por outro lado, é justamente nos momentos mais difíceis que a necessidade de se organizar e de garantir direitos se manifesta. Isso tem ocorrido com os metalúrgicos de Mirassol.

A Constituição Federal prevê legitimidade dos Sindicatos para agir ou promover ações em defesa dos interesses coletivos ou individuais dos trabalhadores. No caso do coronavírus, o que o seu Sindicato vem fazendo nesse sentido?

Fernando – Temos lutado permanentemente para que os direitos coletivos sempre prevaleçam aos individuais. Essa é a própria essência do sindicalismo.  Infelizmente, nossos governantes têm dado todas as cartas nas mãos dos patrões, ou seja, têm privilegiado mesmo contra a Constituição Federal, as negociações individuais o que, certamente, sempre vai enfraquecer o trabalhador.

Temos enfrentado essa situação juridicamente mas, principalmente, tentando conscientizar os trabalhadores a não aceitarem acordos individuais. É fundamental que todos entendam a força que cada um tem quando trabalhamos de forma coletiva sobre nossos interesses comuns. É a única forma de mantermos e conquistarmos direitos.

Você acha que há como juntar trabalho e isolamento social? Como?

Fernando A questão do isolamento social e o trabalho é bastante complicada. No início disso tudo lançamos mão de vários artifícios legais em parceria com as empresas para tentarmos manter os trabalhadores em casa. Férias coletivas, banco de horas e até mesmo o Programa Emergencial do Governo negociamos para a manutenção dos empregos.

A pressão da economia é muito forte e, agora, praticamente tudo volta a funcionar novamente com restrições. Nas metalúrgicas temos trabalhado para que todos os protocolos possíveis de segurança em relação ao Coronavírus sejam atendidos.

Na sua base sindical o desemprego foi muito alto?

Fernando – Aqui em Mirassol, no setor metalúrgico, não sofremos tanto com o desemprego. Isso muito em função do fato de que boa parte de nossas indústrias estão relacionadas ao setor da construção civil, ou seja, fábricas de esquadrias ou estruturas metálicas que fornecem a um setor que em momento algum teve sua atividade paralisada.

Uma das assembleias dos metalúrgicos em defesa de seus direitos; união da classe gera força e conquistas

Você acredita que ao passar esta crise sanitária o mercado retomará a normalidade a curto, médio ou longo prazos?

Fernando – Acredito que o mercado não irá se recuperar no curto   prazo.  A economia não demonstrava grande crescimento antes mesmo da pandemia. Com este problema, alguns setores literalmente pararam, outros estão crescendo mesmo com a crise sanitária. Esperamos que a economia volte a operar com o máximo de plenitude, pois isso beneficia a todos. Mas sabemos que os problemas ainda não acabaram e que as feridas causadas pela pandemia foram profundas.

Com a pandemia, as empresas adotaram o trabalho à distância, o chamado “home office” como medida de proteção contra o vírus. Chega-se a falar que o “trabalho em casa” veio pra ficar. Se isto for concretizado, o trabalhador terá a ganhar ou a perder?

Fernando – Não apenas o home office veio para ficar.  Mas também acreditamos que diversas novas formas de contratação e de novas relações de trabalho serão colocadas no mundo do trabalho. Isso já vem ocorrendo faz muito tempo. As terceirizações são um ótimo exemplo.

Na nossa opinião, o mais importante é que os trabalhadores não percam direitos e nem tenham seu trabalho precarizado. Essa é uma luta que travamos ha muito tempo com o setor patronal. É fundamental que os patrões entendam que quanto mais seus funcionários estiverem com suas necessidades supridas, mais e melhor eles produzirão.

A sindicalização dos trabalhadores é tida como uma couraça de proteção contra abusos sobre seus direitos. Você acha que a categoria entende isso ou ainda é relutante?

Fernando – Como já foi dito, infelizmente os sindicatos têm sofrido seguidos ataques em seus direitos nos últimos governos. O medo do desemprego e a falta de informação dos trabalhadores também colocam os sindicatos frente a dificuldades em suas ações. Temos resistido e, certamente, o movimento sindical no Brasil passará por um processo de transformação. Acredito que para melhor e de maior credibilidade.

Aqui, no Sindicato dos Metalúrgicos de Mirassol, sempre trabalhamos com o conceito de que o trabalhador sócio do sindicato é um trabalhador consciente. É isso que queremos e é dessa forma que resistiremos aos ataques contra os direitos e interesses da classe trabalhadora.

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