O drama da lepra

Por Dr. Liberato Caboclo*

Eu estava no terceiro ano ginasial no Pedro II e como todos os alunos fui conclamado a fazer uma campanha em favor do Leprosário Curupaiti em Jacarepaguá. A campanha distribuía cofres feitos de ladrilhos colados nas arestas com uma pequena fenda em uma das faces para depósitos de moedas. Nós tínhamos preso ao pescoço o cordão com um cartão de identificação com o nosso nome e o destino das doações.

Nesta época, morando na Vila Militar, eu ia de trem para o Colégio Pedro II, aliás trem 17, que ia de Campo Grande à Estação Central do Brasil (Estação do Pedro II). Eu já tinha feito o recolhimento de donativos, mas naquela quinta feira, a despesa na quitanda foi maior do que o esperado. Ficamos sem dinheiro para a passagem para o trem. A passagem do vagão de segunda classe, com bancos de madeira, custava setenta centavos mas o ida e volta era um Cruzeiro e vinte centavos.

Era ainda dia 15 do mês de maio e não havia um tostão, pois, a despesa com a quitanda superara a expectativa. Naquela tarde eu iria ter prova oral de leitura no curso de inglês e não havia segunda chamada e, o não comparecimento, significava zero. Eram dez horas da manhã e minha mãe teve uma ideia genial: pegou uma faca na cozinha e com movimentos ritmados fez uma moeda escorrer através da fenda. Eu tinha um Cruzeiro e cinquenta centavos e um drama de consciência por estar surrupiando dinheiro de doente.

Não sei se foi tensão ou pura coincidência, no dia seguinte eu estava com algumas espinhas no rosto, acne juvenil, imediatamente me veio a certeza de que era uma punição pelo mal feito. É claro que no juízo final eu não poderia acusar minha mãe pois mãe é uma entidade sagrada. A culpa era minha. Além do sentimento de culpa eu tinha que aturar as gozações dos meus colegas – Liberato, você esta exagerando.

Há uma crença entre os adolescentes que a masturbação excessiva causa espinhas, além de ter que mostra a palma da mão de quando em vez, pois acreditam os jovens também que nasce pelos na mão de quem se masturba muito. Finalmente, após quase 15 dias de sofrimento, saiu o pagamento e eu pude restituir o dinheiro para o cofre.

Mais tarde, como médico, trabalhando no Hospital Carlos Chagas, eu fui várias vezes ao Leprosário Curupaiti fazer cesariana em mulheres ali internadas. Era uma cena dolorosa pois as mães só podiam ver o recém-nascido através de um vidro. Com o advento das sulfonas, a lepra hoje é uma doença facilmente curável e não há mais necessidade de isolamento. Aqui mesmo em Rio Preto tratei vários pacientes com sequelas de lepra pois a região de Itajobi e Novo Horizonte tinham uma alta incidência de pacientes com tais sequelas.

A lepra é contagiosa para quem não tem imunidade natural, como acontece na comunidade negra na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde estive indo inspecionar eleições presidenciais no Suriname, como membro da Internacional Socialista. O quadro descrito no filme Papillon é muito menos chocante que a realidade vista em loco.

*Dr. Liberato Caboclo é médico, professor  e ex-prefeito de São José do Rio Preto

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